{"id":1531,"date":"2022-09-02T23:04:43","date_gmt":"2022-09-02T23:04:43","guid":{"rendered":"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/?p=1531"},"modified":"2023-02-24T15:17:31","modified_gmt":"2023-02-24T15:17:31","slug":"aspecto-psicomotores-do-desenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/aspecto-psicomotores-do-desenvolvimento\/","title":{"rendered":"Aspecto Psicomotores do Desenvolvimento"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/testepsicomotor.jpg\"><img  title=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1532\" src=\"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/testepsicomotor.jpg\"  alt=\"testepsicomotor Aspecto Psicomotores do Desenvolvimento\"  width=\"259\" height=\"194\" \/><\/a>Ao iniciar este ensaio, apresentamos a posi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de que nossas rela\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es sociais como, por exemplo, as institui\u00e7\u00f5es e os processos de socializa\u00e7\u00e3o a que nos submetemos, por convencimento ou coa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o resultado de um complexo processo de comunica\u00e7\u00e3o interpessoal \u2014um processo carregado de intencionalidade, interesses e necessidades que se manifestam na concretude de nossa a\u00e7\u00e3o material, no discurso elaborado e nos fatos hist\u00f3ricos. Uma comunica\u00e7\u00e3o interpessoal exige, portanto, ajustes constantes de inten\u00e7\u00f5es e de interesses. \u00c9 com esta id\u00e9ia de intencionalidade exposta que escolhemos uns autores, uns argumentos e n\u00e3o outros, para sustentar as id\u00e9ias que expomos a seguir.<\/p>\n<p>A linha de pensamento elaborada busca suporte fundamentalmente no pensamento habermasiano (1982 e 1985) e na perspectiva dial\u00f3gica de Freire (1979 e 1997). O principal deles \u00e9 o argumento habermasiano que explicita a rela\u00e7\u00e3o entre o conhecimento e os interesses que motivam sua produ\u00e7\u00e3o. Este autor defende que o conhecimento, em uma perspectiva materialista, \u00e9 produzido segundo os interesses que est\u00e3o na base de sua produ\u00e7\u00e3o. Entendemos, concordando com o autor, que o conhecimento tamb\u00e9m caminha sobre as respostas \u00e0s perguntas que fazemos e quest\u00f5es que elaboramos sobre a vida cotidiana.<\/p>\n<p>Assim que nosso interesse, neste ensaio, \u00e9 estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre um tema espec\u00edfico, que preocupa o professorado de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e outros estudiosos \u00be aspectos psicomotores do desenvolvimento humano \u00be e o trabalho cotidiano que se exige desses professores nas Institui\u00e7\u00f5es Escolares onde todas as crian\u00e7as e adolescentes passam, ou deveriam passar.<\/p>\n<p>2. O QUE SE EXIGE DOS PROFESSORES DE EDUCA\u00c7\u00c3O F\u00cdSICA NESTES DIAS?<\/p>\n<p>Quando o Congresso Nacional aprovou a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (Lei n\u00ba 9.394\/96), deixou para tr\u00e1s e desconsiderou uma discuss\u00e3o acumulada sobre o que as comunidades escolares e a sociedade desejavam para a Educa\u00e7\u00e3o Nacional, mantendo injusti\u00e7as e iniq\u00fcidades anteriores ao mesmo tempo em que inaugurou uma nova \u00e9poca de incertezas com efeitos inesperados no \u00e2mbito da escola e dos diversos espa\u00e7os educativos.<\/p>\n<p>A Lei n\u00ba 9.394\/96, o pacote jur\u00eddico da educa\u00e7\u00e3o, mant\u00e9m em m\u00e3os do Estado os recursos financeiros, a normatiza\u00e7\u00e3o (PCNs) e a avalia\u00e7\u00e3o (exame de final de curso) ao mesmo tempo que amplia a responsabilidade dos professores ao propor que estes assumam o compromisso com a elabora\u00e7\u00e3o e a operacionaliza\u00e7\u00e3o do Projeto Pedag\u00f3gico da Escola.<\/p>\n<p>A atual legisla\u00e7\u00e3o retira da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica sua antiga \u201ccerteza legal\u201d, ou seja, descarta os padr\u00f5es de refer\u00eancia tais como: n\u00famero de horas-aula semanais, composi\u00e7\u00e3o das turmas, etc., que na Lei 69.450\/71 estavam normatizados[3]. Estabelece que a Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica dever\u00e1 estar \u201cintegrada \u00e0 proposta pedag\u00f3gica da Escola\u201d, conferindo-lhe o estatuto de componente curricular da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica. Recomenda ainda que dever\u00e1 estar \u201cajustada\u201d \u00e0s faixas et\u00e1rias e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o escolar, \u201csendo facultativa nos cursos noturnos\u201d (Art.26 \u00a73\u00ba). A nova legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 prop\u00f4s uma incerteza a ser negociada no \u00e2mbito de cada Escola como tamb\u00e9m retirou de pauta reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas dos professores como, por exemplo, a exig\u00eancia de especialista em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica nas primeiras s\u00e9ries do Ensino Fundamental.<\/p>\n<p>A atual LDB, como j\u00e1 mencionamos em par\u00e1grafo anterior, mant\u00e9m nas m\u00e3os do Estado (Uni\u00e3o) a compet\u00eancia para elaborar o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, em colabora\u00e7\u00e3o com os Estados, o Distrito Federal e os Munic\u00edpios, maximizando a a\u00e7\u00e3o do executivo e minimizando a participa\u00e7\u00e3o dos Conselhos Municipais, Estaduais e Escolares de Educa\u00e7\u00e3o, na formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica educacional (Art. 9\u00ba). Para operacionalizar a Pol\u00edtica Educacional do MEC foram criados\/elaborados os Par\u00e2metros Curriculares Nacionais -PCNs- com \u201co pretenso objetivo de oferecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o o dom\u00ednio de recursos culturais imprescind\u00edveis ao exerc\u00edcio da cidadania\u201d (Taffarel, 1997:34)[4].<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, pouca coisa a mais a norma trouxe de novidade para os Professores de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica. No entanto tal iniciativa estabeleceu para esse coletivo a necessidade de negociar, discutir, consensuar e principalmente justificar a presen\u00e7a da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica na Institui\u00e7\u00e3o Escolar e manter, pela argumenta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, o espa\u00e7o institucional j\u00e1 conquistado e as suas prerrogativas anteriores \u00e0 vig\u00eancia da mesma. Tal negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, j\u00e1 que agora esse coletivo de docentes e a pr\u00f3pria Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica precisam disputar espa\u00e7o pol\u00edtico-pedag\u00f3gico com outros professores e outras disciplinas de conhecimento examin\u00e1vel (Ball, 1989), cuja rela\u00e7\u00e3o que mant\u00eam com o desenvolvimento econ\u00f4mico lhes conferem um status e um poder de primeira grandeza dentro da Escola e junto \u00e0 Comunidade Escolar. Para tal disputa o Professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica precisa exercitar e evidenciar algumas compet\u00eancias te\u00f3ricas e comunicativas que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o lhe eram exigidas.<\/p>\n<p>3. A QUEST\u00c3O<\/p>\n<p>Que argumentos utilizar\u00e1 o Professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica para justificar seu espa\u00e7o pol\u00edtico-pedag\u00f3gico na Escola e o equivalente espa\u00e7o da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica como componente curricular?<\/p>\n<p>Recorrer\u00e1 \u00e0 recente Lei n\u00ba 9.696\/98 que disp\u00f5e sobre a regulamenta\u00e7\u00e3o da Profiss\u00e3o e cria os respectivos Conselhos Federal e Regionais de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica?<\/p>\n<p>Utilizar\u00e1 os argumentos dos anos 70, cuja forma\u00e7\u00e3o preparou os Professores como T\u00e9cnicos Esportivos, para organizar e treinar equipes para o desporto escolar e atender a pol\u00edtica de esportiviza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e o Sistema Desportivo Nacional, formatado nos termos da Lei 6.251\/75?<\/p>\n<p>Argumentar\u00e1 com as teses dos anos 80, atrav\u00e9s da psicocin\u00e9tica de Le Boulch (1983), Lapierre (1982), Picq e Vayer (1977) e outros, cuja terminologia e procedimento de interven\u00e7\u00e3o concebiam o Licenciado em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica como um cinesioterapeuta?<\/p>\n<p>Justificar\u00e1 sua presen\u00e7a na Escola com a reflex\u00e3o cr\u00edtica iniciada na d\u00e9cada de 80 sobre o papel do esporte na manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas entre classes sociais, que juntamente com a psicocin\u00e9tica fizeram ant\u00edtese \u00e0 esportiviza\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica?<\/p>\n<p>Poder\u00e1 argumentar com os conhecimentos dos anos 90, cujo neotecnicismo na educa\u00e7\u00e3o (Freitas, 1996) direciona as a\u00e7\u00f5es educativas para a globaliza\u00e7\u00e3o da economia e da homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural, concebendo assim o Licenciado em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica como assessor e especialista na aptid\u00e3o e na condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, elementos integrantes do estilo de vida ativo e dos habitus (Bourdieu, 1996) dos segmentos sociais que podem pagar por esse servi\u00e7o (personal-training, em palavras da moda)?<\/p>\n<p>Pensamos que o ponto zero, desta nova caminhada, passa pelo entendimento da a\u00e7\u00e3o do Professor e da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, enquanto componente curricular, dentro de uma perspectiva mais ampla de um projeto escolarizante.<\/p>\n<p>4. COMO ENT\u00c3O A EDUCA\u00c7\u00c3O F\u00cdSICA SE JUSTIFICA, DENTRO DE UMA PERSPECTIVA DE TOTALIDADE, NA INSTITUI\u00c7\u00c3O ESCOLAR?<\/p>\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, somente se justificar\u00e1 atrav\u00e9s da argumenta\u00e7\u00e3o convincente dos Professores de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica nas disputas pol\u00edtico-pedag\u00f3gicas que se estabelecer\u00e3o no \u00e2mbito das comunidades escolares. Entendemos que a argumenta\u00e7\u00e3o dever\u00e1 estar sustentada em quatro pontos principais:<\/p>\n<p>a) assentar sua pr\u00e1tica nas finalidades educativas que concebem a educa\u00e7\u00e3o como pr\u00e1tica de liberdade (Freire, 1979 e 1997), que luta contra a interdi\u00e7\u00e3o do corpo, a educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria e os interesses que impedem o ser humano de \u201cser mais\u201d. Uma pr\u00e1tica como parte do arcabou\u00e7o te\u00f3rico que sustenta as teorias emancipat\u00f3rias;<\/p>\n<p>b) entender a Escola como espa\u00e7o democr\u00e1tico de cultura, onde se d\u00e1 tanto a reprodu\u00e7\u00e3o como a produ\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es de mundo, de conhecimento e de valores que disputam pretens\u00f5es de validade, atrav\u00e9s das objetiva\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas e n\u00e3o expl\u00edcitas do curr\u00edculum escolar (Giroux, 1990);<\/p>\n<p>c) atuar como intelectual transformativo comprometido, atrav\u00e9s da articula\u00e7\u00e3o do conte\u00fado espec\u00edfico com as quest\u00f5es sociais, com a busca da autonomia dos sujeitos implicados em todo ato educativo (professor-aluno), como tamb\u00e9m articulado com os interesses da comunidade escolar, e;<\/p>\n<p>d) sublinhar o conhecimento como um elemento de aproxima\u00e7\u00e3o entre professor e aluno, da cultura popular e a cultura erudita didaticamente adaptada, sabendo de antem\u00e3o que a sele\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados no curr\u00edculum escolar \u00e9 resultado de inclus\u00f5es e omiss\u00f5es deliberadas, ou seja, o resultado de um projeto hist\u00f3rico de composi\u00e7\u00f5es e conflitos de for\u00e7as sociais (Lib\u00e2neo, 1986).<\/p>\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica concebida sobre esses pontos se justificar\u00e1 na escola em torno a um objetivo vital, qual seja: promover a alfabetiza\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria dos alunos atrav\u00e9s das objetiva\u00e7\u00f5es da cultura corporal, do reconhecimento destas manifesta\u00e7\u00f5es como elementos de socializa\u00e7\u00e3o e de conquista das pautas sociais de seu tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Neste sentido e concordando com Kunz (1994), a a\u00e7\u00e3o educativa do Professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica tratar\u00e1 de oportunizar ao aluno os tr\u00eas n\u00edveis de compet\u00eancia: a t\u00e9cnica, a social e a ling\u00fc\u00edstica. Enfim, capacitar\u00e1 o sujeito a uma a\u00e7\u00e3o comunicativa no mundo atrav\u00e9s do conhecimento espec\u00edfico do componente curricular em quest\u00e3o, a Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica.<\/p>\n<p>5. OS ASPECTOS PSICOMOTORES DO DESENVOLVIMENTO HUMANO PODEM SER ELEMENTOS PARA ALCAN\u00c7AR TAL OBJETIVO E TAIS COMPET\u00caNCIAS?<\/p>\n<p>Se a op\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do Professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica for a de pautar-se pelos fundamentos da chamada psicomotricidade funcional (Picq e Vayer (1977), Vayer (1982), Le Boulch (1983) e outros) cuja proposta se restringe basicamente a avaliar (bateria de testes) e prescrever (reeduca\u00e7\u00e3o motora e postural) cremos que sua a\u00e7\u00e3o ser\u00e1 muito restrita. Neste \u201cmodelo\u201d o desenvolvimento da crian\u00e7a e do adolescente, nos seus aspectos motor e das habilidades funcionais, \u00e9 considerado independentemente do ambiente s\u00f3cio-cultural circundante, ou seja, \u00e9 considerado como instrumento para a fundamenta\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo de interven\u00e7\u00e3o que pretende alcan\u00e7ar tamb\u00e9m o desenvolvimento global do ser humano.<\/p>\n<p>Na nossa perspectiva, essa restri\u00e7\u00e3o se torna evidente, porque n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es que o sujeito mant\u00e9m com seus pares e a intera\u00e7\u00e3o desses com o entorno hist\u00f3rico, pol\u00edtico e social. A pr\u00f3pria teoria materialista tem como fundamento o pensamento de que a organiza\u00e7\u00e3o do corpo e o desenvolvimento do corpo do sujeito est\u00e1 em muito influenciada pelo seu modo de vida e as ferramentas que utiliza para, interagindo com a natureza, garantir a reprodu\u00e7\u00e3o da vida e a produ\u00e7\u00e3o de meios de sobreviv\u00eancia. Queremos dizer que as pr\u00f3prias experi\u00eancias corporais s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais e portanto influenciadas e delimitadas pelo contexto a cada tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Assim, problemas como organiza\u00e7\u00e3o corporal, lateralidade, orienta\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-temporal, consci\u00eancia corporal, coordena\u00e7\u00e3o motora, entre outros, est\u00e3o muito mais vinculados (positiva ou negativamente) \u00e0s viv\u00eancias e experi\u00eancias corporais do que propriamente \u00e0 matura\u00e7\u00e3o do Sistema Nervoso Central, j\u00e1 que esta tamb\u00e9m \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica homem-natureza.<\/p>\n<p>Vale a pena destacar ainda que a restri\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se consubstancia na medida em que o trabalho psicomotor na perspectiva te\u00f3rica \u201cfuncional\u201d, em sua maioria, est\u00e1 orientado para o rendimento escolar e n\u00e3o para que o sujeito se entenda a si mesmo.<\/p>\n<p>No nosso ponto de vista, a\u00e7\u00f5es educativas pautadas nos princ\u00edpios e nos objetivos propostos pela psicomotricidade na perspectiva do desenvolvimento humano podem ter sustenta\u00e7\u00e3o em duas propostas te\u00f3ricas que ganham f\u00f4lego em nossos dias:<\/p>\n<p>a) a chamada Pr\u00e1tica Psicomotriz Educativa, paradigma defendido por Negrine (1995), elaborado a partir dos trabalhos de Lapierre e de Aucouturier, da an\u00e1lise de v\u00e1rias pr\u00e1ticas, da observa\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica e na revis\u00e3o de trabalhos anteriores do pr\u00f3prio autor.<\/p>\n<p>Esta proposta te\u00f3rica, de vi\u00e9s vigotskiano, integra a aprendizagem motora a uma proposta ampla de desenvolvimento infantil onde o jogo e a exercita\u00e7\u00e3o corporal, em ambientes organizados, que incluem a disponibilidade corporal do professor, se transformam em ambientes de aprendizagem social e de desenvolvimento humano. Al\u00e9m de consubstanciar a Psicomotricidade Relacional, tem demonstrado que o simbolismo aparece na crian\u00e7a antes dos tr\u00eas anos, tal como apregoa a literatura internacional e, portanto, com efeitos pedag\u00f3gicos ainda n\u00e3o bem compreendidos pela comunidade de especialistas no \u00e2mbito da aprendizagem e do desenvolvimento infantil;<\/p>\n<p>b) a Teoria dos Sistemas Ecol\u00f3gicos como paradigma para o desenvolvimento do ser humano, tese defendida no Brasil por Krebs (1997), a partir dos ensinamentos de Urie Bronfenbrenner, que \u00e9 uma ant\u00edtese \u00e0s teorias desenvolvimentistas tradicionais. Trata-se de uma teoria que considera o contexto no qual o sujeito participa como parte integrante de um microssistema ambiental que se desenvolve articulado, dinamicamente, a sistemas maiores.<\/p>\n<p>Assim, o desenvolvimento psicomotor pode ser entendido como uma face do desenvolvimento humano que se processa em conson\u00e2ncia e integrado ao ambiente ecol\u00f3gico, isto \u00e9, n\u00e3o existe desenvolvimento humano, sem o desenvolvimento do ambiente ecol\u00f3gico, representado pelo micro-sistema como um todo.<\/p>\n<p>\u201cO ambiente, a estrutura socio-cultural e o momento hist\u00f3rico devem ser entendidos como estruturas din\u00e2micas e n\u00e3o como invariantes ao longo do tempo.\u201d (Krebs, 1997. p.20)<\/p>\n<p>Esta teoria, vale dizer, desloca o foco de an\u00e1lise antropoc\u00eantrica do desenvolvimento humano, para uma an\u00e1lise \u201cna\u201d e \u201cda\u201d rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas duas bases te\u00f3ricas (Negrine, 1995 e Krebs, 1997) est\u00e3o sinalizando v\u00e1rios aspectos que devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o nas discuss\u00f5es e elabora\u00e7\u00e3o dos projetos de ensino que se seguir\u00e3o a partir dos pr\u00f3ximos anos. Destacamos os seguintes:<\/p>\n<p>a) a necessidade de rever a fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e a metodologia de ensino da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica na Escola, j\u00e1 que, como sugere Negrine (1995), a aprendizagem e o desenvolvimento infantil apresentam descontinuidades e, ainda que processos conseq\u00fcentes, n\u00e3o guardam rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Em uma palavra, o sujeito se desenvolve porque aprende e aprende porque se desenvolve. Nas diferentes faixas et\u00e1rias, um p\u00f3lo tem mais evid\u00eancia nessa a\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica;<\/p>\n<p>b) a inadequa\u00e7\u00e3o de propostas pedag\u00f3gicas gerais de grande amplitude, j\u00e1 que os microssistemas e o ambiente funcionam como fatores decisivos de desenvolvimento e de aprendizagem do sujeito que aprende. O estudo denominado \u201cPerfil de desenvolvimento dos escolares Kaig\u00e1ng na terra da Guarita, RS\u201d (Da Rocha e Krebs, 1997) \u00e9 um belo exemplo de como o desenvolvimento corporal dos integrantes de uma comunidade culturalmente diferenciada est\u00e1 influenciado pelas condi\u00e7\u00f5es ambientais e pelo patrim\u00f4nio gen\u00e9tico. Por outro lado, tamb\u00e9m se v\u00ea a pouca efetividade dos projetos sanit\u00e1rios e reeducativos, uma vez que estes t\u00eam significados distintos para os integrantes de cada comunidade. Isto quer dizer, sobretudo, que qualquer proposta pedag\u00f3gica passa necessariamente por contemplar uma a\u00e7\u00e3o na din\u00e2mica do microssistema como um todo;<\/p>\n<p>c) a import\u00e2ncia de planejar o trabalho docente nos marcos da perspectiva que contempla o ensino e a pesquisa como uma unidade de a\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida, o desenvolvimento humano e seus aspectos psicomotores \u00e9 melhor observado e problematizado nas situa\u00e7\u00f5es concretas de intera\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7as, adolescentes e professores oportunizadas na ambi\u00eancia da Institui\u00e7\u00e3o Escolar que, como evidenciam os v\u00e1rios debates pedag\u00f3gicos, \u00e9 o lugar privilegiado para aprender e ensinar.<\/p>\n<p>6. CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/p>\n<p>O tema do desenvolvimento humano \u00e9 amplo e existe um volume significativo de informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o transmitidas nas diferentes Institui\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o de Professores de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. Neste ensaio optamos por articular algumas id\u00e9ias e arriscar em uma linha de pensamento.<\/p>\n<p>Por outro lado, procuramos tamb\u00e9m articular um tema espec\u00edfico, como \u00e9 o caso dos aspectos psicomotores do desenvolvimento humano, com a situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 colocada para a pr\u00e1tica docente dos Professores de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica no \u00e2mbito da Educa\u00e7\u00e3o Escolar. Este novo cen\u00e1rio, produzido a partir do Reordenamento Jur\u00eddico da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, objetivado num pacote de leis, resolu\u00e7\u00f5es e planos curriculares de car\u00e1cter nacional, produzir\u00e1 impactos de significativa repercuss\u00e3o no processo de forma\u00e7\u00e3o inicial e permanente dos professores[5].<\/p>\n<p>Desta forma, as especificidades e objetiva\u00e7\u00f5es da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, enquanto componente curricular da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, t\u00eam que se pautar por uma base te\u00f3rica explicitada e discutida no \u00e2mbito da Comunidade Escolar. Ou seja, o Licenciado em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica tem de evidenciar, por exemplo, atrav\u00e9s da inclus\u00e3o dos aspectos psicomotores do desenvolvimento humano em seu plano de a\u00e7\u00e3o, suas credenciais te\u00f3ricas e, assim, chamar-se professor.<\/p>\n<p>Fonte: NIPN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao iniciar este ensaio, apresentamos a posi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de que nossas rela\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es sociais como, por exemplo, as institui\u00e7\u00f5es e os processos de socializa\u00e7\u00e3o a que nos submetemos, por convencimento ou coa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o resultado de um complexo processo de comunica\u00e7\u00e3o interpessoal \u2014um processo carregado de intencionalidade, interesses e necessidades que se manifestam na concretude [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18445,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"_joinchat":[],"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-1531","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-psicomotricidade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Captura-de-tela-2023-02-24-121709.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1531"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1531\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18446,"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1531\/revisions\/18446"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18445"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}