{"id":1534,"date":"2022-09-02T23:12:52","date_gmt":"2022-09-02T23:12:52","guid":{"rendered":"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/?p=1534"},"modified":"2023-02-24T15:13:48","modified_gmt":"2023-02-24T15:13:48","slug":"epilepsia-agressividade-e-personalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/epilepsia-agressividade-e-personalidade\/","title":{"rendered":"Epilepsia, Agressividade e Personalidade"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/sistemalimbico.png\"><img  title=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1535\" src=\"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/sistemalimbico-300x225.png\"  alt=\"sistemalimbico-300x225 Epilepsia, Agressividade e Personalidade\"  width=\"300\" height=\"225\"><\/a>A abordagem da epilepsia tem sido muito diferente entre as duas disciplinas m\u00e9dicas que se ocupam do problema: a neurologia e a psiquiatria. Neurologicamente a epilepsia pode ser entendida como uma disritmia cerebral parox\u00edstica capaz de provocar altera\u00e7\u00f5es no sistema nervoso central e, conseq\u00fcentemente, em todo organismo. Sob o ponto de vista psiqui\u00e1trico, tamb\u00e9m se entende a epilepsia como uma disritmia cerebral parox\u00edstica, com altera\u00e7\u00f5es funcionais do sistema nervoso central e, conseq\u00fcentemente, manifesta\u00e7\u00f5es no comportamento, nas emo\u00e7\u00f5es e nos padr\u00f5es de rea\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>O termo Epilepsia refere-se a uma condi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica de ataques peri\u00f3dicos ou repetidos, causados por uma condi\u00e7\u00e3o fisiopatol\u00f3gica da fun\u00e7\u00e3o cerebral, resultante da descarga espont\u00e2nea e excessiva de neur\u00f4nios corticais. Entretanto, n\u00e3o se deve entender a epilepsia como uma doen\u00e7a exclusivamente convulsiva. A convuls\u00e3o \u00e9 apenas um dos sintomas da doen\u00e7a, o qual traduz a exist\u00eancia ocasional de uma descarga excessiva e desordenada do tecido nervoso sobre os m\u00fasculos do organismo. A epilepsia por\u00e9m, deve ser conceituada atualmente, como uma s\u00edndrome com um conjunto de sinais e sintomas decorrentes desta disritmia cerebral parox\u00edstica. Nesta s\u00edndrome portanto, a convuls\u00e3o propriamente dita, pode at\u00e9 estar ausente, como se acredita que aconte\u00e7a na maioria dos pacientes disr\u00edtmicos.<\/p>\n<p>Na disritmia cerebral o dist\u00farbio no padr\u00e3o el\u00e9trico da atividade neuronal mostra-se paroxisticamente e pode ser oriundo de qualquer parte do sistema nervoso central. Entretanto, alguns estudos iniciais pela tomografia de emiss\u00e3o de p\u00f3sitrons t\u00eam mostrado que os focos epil\u00e9pticos s\u00e3o hipometab\u00f3licos nos per\u00edodos intercrises, ou seja, o foco ser\u00e1 hiperativo durante as crises e hipometab\u00f3licos fora das crises, o que significa n\u00e3o funcionarem bem em nenhum momento. Quando a localiza\u00e7\u00e3o do foco epilept\u00f3geno \u00e9 no lobo temporal, esta atividade disr\u00edtmica se mostra mais relevante para a psiquiatria. Neste caso ser\u00e1 denominada Epilepsia Parcial Complexa, Epilepsia do Lobo Temporal ou Epilepsia Psicomotora.<\/p>\n<p>Em estudo realizado no Canad\u00e1 em 1994 (Nathaniel J.Pollone e James J. Hennessy), num grupo de 372 homens presos de um hospital mental judici\u00e1rio de seguran\u00e7a m\u00e1xima, 20 % tinham anormalidades focais temporais do eletroencefalograma, e 41% tinham altera\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas da estrutura cerebral no lobo temporal. Isso sugere um relevante papel dos danos neurol\u00f3gicos na forma\u00e7\u00e3o do comportamento violento. Os dados mostraram uma propor\u00e7\u00e3o de 21:1 para agressivos habituais, ou seja, 21 portadores de altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gica para cada 1 agressivo sem essas altera\u00e7\u00f5es. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o normal a incid\u00eancia foi de 4:1, ou seja, 4 vezes mais freq\u00fcente os agressores com as altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas que os agressores sem elas.<\/p>\n<p>As considera\u00e7\u00f5es acerca de determinada personalidade &#8220;epileptiforme&#8221;, a qual re\u00fane tra\u00e7os encontradi\u00e7os em pacientes disr\u00edtmicos, t\u00eam despertado discuss\u00f5es virulentas. Por cautela meramente acad\u00eamica, colocamos o &#8220;epileptiforme&#8221; entre demagogos par\u00eanteses. Mesmo que a pr\u00e1tica cl\u00ednica cotidiana constate substanciais argumentos em favor de um rico conjunto de caracter\u00edsticas personais em epil\u00e9pticos, tanto sob o ponto de vista comportamental quanto afetivo, conv\u00e9m estabelecer mais algumas considera\u00e7\u00f5es sobre esse pol\u00eamico assunto e, desta forma, evitar arranhar opini\u00f5es ainda n\u00e3o sensibilizadas pela for\u00e7a das observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Kaplan considera, juntamente com outros tantos autores, uma alta incid\u00eancia de psicoses na epilepsia. Al\u00e9m disso, as perturba\u00e7\u00f5es da personalidade constituem os problemas psiqui\u00e1tricos mais comuns nesta disfun\u00e7\u00e3o do Sistema Nervoso Central. N\u00e3o se afirma, com isso, que todos epil\u00e9pticos possuam a mesma personalidade ou as mesm\u00edssimas caracter\u00edsticas, de forma que possamos coloc\u00e1-los todos num mesmo &#8220;clone&#8221;. O que acontece s\u00e3o determinados tra\u00e7os comportamentais, de relacionamento, de rea\u00e7\u00e3o vivencial, de emotividade e impulsividade encontrados estatisticamente de maneira significativa nos pacientes epil\u00e9pticos.<\/p>\n<p>Para melhor compreens\u00e3o desse tema, \u00e9 fundamental entendermos esse nosso epil\u00e9ptico, n\u00e3o necessariamente como aquela pessoa que tem convuls\u00f5es. Quase pelo contr\u00e1rio. A pr\u00e1tica cl\u00ednica nos tem ensinado que os epil\u00e9pticos convulsivos s\u00e3o, inclusive, menos propensos \u00e0 altera\u00e7\u00f5es de personalidade do que aqueles n\u00e3o convulsivos. Essas observa\u00e7\u00f5es decorrem de um diagn\u00f3stico retr\u00f3grado, ou seja, primeiramente constatamos algum tra\u00e7o ou mesmo altera\u00e7\u00e3o de personalidade para, depois, constatarmos altera\u00e7\u00f5es eletroencefalogr\u00e1ficas. Notadamente, s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es do lobo temporal.<\/p>\n<p>Outro fato a ser lembrado \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o aos termos usados: estamos falando em tra\u00e7os e altera\u00e7\u00f5es de personalidade e n\u00e3o, necessariamente, em Transtornos de Personalidade. Isso quer dizer que esses tra\u00e7os nem sempre constituem uma doen\u00e7a. Para tal, de acordo com o conceito de Transtornos de Personalidade, h\u00e1 necessidade de concomitante preju\u00edzo social e ocupacional.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma maneira de ser do epil\u00e9ptico caracterizada, principalmente, por irritabilidade, explosividade, agressividade, querel\u00e2ncia, viscosidade, instabilidade de humor e outros sinais muito bem delineados pelo trabalho de L\u00facia Coelho. Tamb\u00e9m se v\u00ea na pr\u00e1tica cl\u00ednica, outras altera\u00e7\u00f5es mais patol\u00f3gicas e respons\u00e1veis por altera\u00e7\u00f5es da sensopercep\u00e7\u00e3o, tais como alucina\u00e7\u00f5es e ilus\u00f5es, n\u00e3o citadas por essa autora e encontradas em pacientes com altera\u00e7\u00f5es eletroencefalogr\u00e1ficas do lobo temporal.<\/p>\n<p>Inegavelmente a epilepsia resulta de um dist\u00farbio fisiol\u00f3gico do Sistema Nervoso Central e n\u00e3o de conflitos intra-ps\u00edquicos, embora, sem d\u00favida, estes possam coexistir. Assim, os transtornos epileptiformes da personalidade seriam muito mais secund\u00e1rios a altera\u00e7\u00f5es funcionais do Sistema Nervoso Central, do que motivados por raz\u00f5es exclusivamente emocionais, cogitando-se, inclusive, que muitos dos sentimentos esbo\u00e7ados por tais pacientes sejam conseq\u00fc\u00eancia deste dist\u00farbio funcional.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<img  title=\"\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/universoautista.com.br\/materia\/psico_01.jpg\"  alt=\"psico_01 Epilepsia, Agressividade e Personalidade\" ><\/center><\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas da personalidade facilmente observ\u00e1vel nos epil\u00e9pticos extrovertidos, talvez seja a chamada viscosidade, mas s\u00f3 nos extrovertidos. Esta altera\u00e7\u00e3o se evidencia numa forma de inter-relacionamento pessoal caracterizada por adesividade, circunstancialidade e prolixidade; a conversa\u00e7\u00e3o com o paciente costuma ser lenta, s\u00e9ria, pedante, irritantemente ponderada, excessivamente cheia de detalhes, min\u00facias sup\u00e9rfluas e demasiadamente circunstancial. Comumente o ouvinte se aborrece diante do desprezo ao tema principal da conversa em benef\u00edcio dos detalhes, procura reconduzir o assunto \u00e0 pauta principal mas o paciente insiste no discurso com um volteio intermin\u00e1vel. Encerrar a conversa com tais pacientes \u00e9 tarefa dif\u00edcil, despedir-se deles \u00e9 demorado e irritante; freq\u00fcentemente fazem que d\u00e3o o assunto por encerrado mas acrescentam mais alguma coisa, ficam mais um pouco, lembram mais alguma coisa a perguntar, enfim, grudam demais. Por isso s\u00e3o chamados de viscosos ou pegajosos.<\/p>\n<p>Outra peculiaridade comportamental encontradi\u00e7a em altera\u00e7\u00f5es da personalidade do paciente disr\u00edtmicos \u00e9 a agressividade. Segundo Kaplan, existem evid\u00eancias sugerindo que o aumento da agressividade esteja relacionada a les\u00f5es focais irritativas, particularmente do lobo temporal e frontal, am\u00edgdala medial e tegumento mesoencef\u00e1lico. Johnson refere pesquisas de Mark e Ervin constatando mais de 50% de epilepsia entre 163 pacientes agressivos e acrescenta que &#8220;o tipo mais comum de doen\u00e7a cerebral associada ao comportamento destrutivo e ao descontrole de comportamento \u00e9 a epilepsia do lobo temporal&#8221;.<\/p>\n<p>Bleuler diz ser a intensidade m\u00f3rbida dos impulsos emocionais e dos estados de \u00e2nimo o tra\u00e7o mais dominante do car\u00e1ter epil\u00e9ptico, muito mais prolongados que numa pessoa normal e mais dif\u00edceis de interromper por influ\u00eancias externas. Assim sendo, o epil\u00e9ptico pode ter uma ira cega em circunst\u00e2ncias nas quais uma pessoa sadia apenas se zangaria. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a irritabilidade a se manifestar de maneira exacerbada, tamb\u00e9m a alegria, gratid\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o tendem a exagerar-se nesses dist\u00farbios. Denis Williams aponta a intensifica\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, as dificuldades de relacionamento e o comportamento agressivo nas epilepsias do lobo temporal, entre outras caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>O termo Personalidade Epilept\u00f3ide \u00e9 utilizada por Kaplan ao descrever o Transtornos Explosivo Intermitente, segundo a classifica\u00e7\u00e3o do DSM-III-R. O Transtornos Explosivo Intermitente foi tratado pelo DSM-III-R e continua classificado pelo DSM-IV, no cap\u00edtulo dos Transtornos do Controle dos Impulsos. Na CID-10 corresponde ao c\u00f3digo F63.8, rotulado como Outros Transtornos dos H\u00e1bitos e Impulsos, dentro do cap\u00edtulo Transtornos dos H\u00e1bitos e Impulsos. Devemos incluir aqui comportamentos mal adaptativos, persistentemente repetidos que n\u00e3o sejam secund\u00e1rios \u00e0 qualquer s\u00edndrome psiqui\u00e1trica reconhecida e nos quais parece haver falhas repetidas a resistir a impulsos para executar o comportamento agressivo.<\/p>\n<p>Tanto a CID-10 quanto o DSM-IV colocam os seguintes transtornos juntos:<br \/>\n1 &#8211; Transtornos Explosivo Intermitente<br \/>\n2 &#8211; Cleptomania<br \/>\n3 &#8211; Jogo Patol\u00f3gico<br \/>\n4 &#8211; Piromania<br \/>\n5 &#8211; Tricotilomania<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica essencial dos Transtornos de Controle dos Impulsos \u00e9 o fracasso em resistir a um impulso ou tenta\u00e7\u00e3o de executar um ato perigoso para a pr\u00f3pria pessoa ou para outros. Na maioria dos transtornos descritos nesta classifica\u00e7\u00e3o, o paciente sente uma crescente tens\u00e3o ou excita\u00e7\u00e3o antes de cometer o ato. Ap\u00f3s comet\u00ea-lo, pode ou n\u00e3o haver arrependimento, auto-recrimina\u00e7\u00e3o ou culpa.<\/p>\n<p>Embora o indiv\u00edduo fracasse em resistir ao \u00edmpeto e \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o de tais atitudes, poder\u00e1 experimentar grande arrependimento t\u00e3o logo concretize o ato. Kaplan enfatiza autores atuais que atestam um poss\u00edvel envolvimento de fatores org\u00e2nicos nos dist\u00farbios dos impulsos e determinadas experi\u00eancias que demonstram regi\u00f5es espec\u00edficas do c\u00e9rebro envolvidas com a atividade impulsiva e violenta, como \u00e9 o caso do sistema l\u00edmbico e epilepsias dos lobos temporais. Este quadro de explosividade e\/ou agressividade \u00e9 melhor estudado no cap\u00edtulo anterior sobre o Comportamento Violento.<\/p>\n<p>Um outro transtorno da personalidade associado \u00e0 epilepsia, desta feita do lobo frontal (raras vezes tamb\u00e9m \u00e0 epilepsia do lobo temporal), \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o descrita pelo DSM-III-R como S\u00edndrome Org\u00e2nica da Personalidade, referida em classifica\u00e7\u00f5es mais antigas como um padr\u00e3o de comportamento compat\u00edvel com a S\u00edndrome do Lobo Frontal. \u00c9 um dist\u00farbio persistente da personalidade caracterizado principalmente por instabilidade afetiva, explos\u00f5es de agressividade ou raiva recorrentes, comprometimento acentuado do julgamento social, apatia acentuada e indiferen\u00e7a, desconfian\u00e7a ou idea\u00e7\u00e3o paran\u00f3ide.<\/p>\n<p>No caso de S\u00edndrome Org\u00e2nica da Personalidade, pode haver um acentuado comprometimento social e ocupacional proporcional ao comprometimento do ju\u00edzo cr\u00edtico e \u00e0s crises de explosividade, fato muito mais atenuado nos casos de Transtornos Explosivo Intermitente. De maneira geral, tanto a S\u00edndrome Org\u00e2nica da Personalidade como o Transtornos Explosivo Intermitente s\u00e3o modalidades de personalidade que proporcionam ao indiv\u00edduo uma maneira pr\u00f3pria de existir, de reagir e de sentir a vida e cuja etiologia sup\u00f5e-se associada \u00e0 um transtorno disr\u00edtmico do Sistema Nervoso Central, por\u00e9m, sem men\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria da exist\u00eancia de convuls\u00f5es.<\/p>\n<p>De todo complexo sintom\u00e1tico associado \u00e0 epilepsia, tr\u00eas sinais receberam aten\u00e7\u00e3o maior dos pesquisadores: irritabilidade, instabilidade afetiva e viscosidade. Nenhum deles, entretanto, \u00e9 patognom\u00f4nico da epilepsia e nem tampouco obrigat\u00f3rio nos pacientes epil\u00e9pticos. Mais apropriado seria consider\u00e1-los como componentes de uma vasta constela\u00e7\u00e3o caracterol\u00f3gica, na maioria das vezes compat\u00edvel com uma boa manuten\u00e7\u00e3o da vida greg\u00e1ria, mas poss\u00edveis de uma abordagem psiqui\u00e1trica, sempre que esta modalidade de personalidade fizer sofrer o indiv\u00edduo ou aqueles que o rodeiam.<\/p>\n<p>Classifica\u00e7\u00e3o e Diagn\u00f3stico<br \/>\nDevemos considerar a epilepsia sob dois pontos de vista: primeiramente como um conjunto sindr\u00f4mico de sinais e sintomas ps\u00edquicos e, em segundo, como possibilidade de manifesta\u00e7\u00e3o da potencialidade epil\u00e9ptica sob a forma de crises cl\u00ednicas definidas, desde a cl\u00e1ssica convuls\u00e3o generalizada at\u00e9 pequenos sintomas sensitivos, cognitivos ou psicomotores.<\/p>\n<p>No caso de ser abordado o conjunto sindr\u00f4mico do paciente disr\u00edtmico h\u00e1 que se compreender o epil\u00e9ptico, com sua maneira de ser e sua personalidade. No caso da caracteriza\u00e7\u00e3o cl\u00ednica das crises procura-se compreender a epilepsia, com seu quadro cl\u00ednico, curso e evolu\u00e7\u00e3o. Interessa \u00e0 psiquiatria a abordagem do epil\u00e9ptico em geral e das epilepsias com peculiar express\u00e3o ps\u00edquica. As demais formas s\u00e3o melhor estudadas pela neurologia.<\/p>\n<p>As epilepsias podem ser Parciais ou Generalizadas. As epilepsias ditas Parciais s\u00e3o aquelas que comprometem apenas um dos hemisf\u00e9rios cerebrais. Entre elas, ser\u00e3o consideradas Parciais Simples sempre que n\u00e3o houver comprometimento da consci\u00eancia e, ao contr\u00e1rio, Parciais Complexas havendo tal comprometimento. S\u00e3o Generalizadas as epilepsias que afetam ambos hemisf\u00e9rios cerebrais e, tal como as parciais, podem ser Convulsivas e n\u00e3o-Convulsivas.<\/p>\n<p>I &#8211; EPILEPSIA PARCIAL<br \/>\nSimples<br \/>\nComplexa<br \/>\nII &#8211; EPILEPSIA GENERALIZADA<br \/>\nConvulsiva<br \/>\nN\u00e3o Convulsiva<\/p>\n<p>Entre as crises epil\u00e9pticas interessa particularmente \u00e0 psiquiatria, a Crise Parcial com Sintomatologia Ps\u00edquica. Estas crises podem se manifestar em forma de dist\u00farbios parox\u00edsticos da linguagem com crises de afasia transit\u00f3rias, podem apresentar lapsos parox\u00edsticos de mem\u00f3ria, sensa\u00e7\u00f5es de &#8220;d\u00eaj\u00e0 vu&#8221;ou de &#8220;jamais vu&#8221;. N\u00e3o raras vezes h\u00e1 queixas de distor\u00e7\u00f5es na percep\u00e7\u00e3o dos objetos, ora percebidos como aumentados ora como diminu\u00eddos, disformes, mudados de posi\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Outras peculiaridades podem estar presentes nas Crises Parciais com Sintomatologia Ps\u00edquica, como por exemplo, as modifica\u00e7\u00f5es parox\u00edsticas do humor e do afeto, sensa\u00e7\u00f5es de prazer e desprazer, epis\u00f3dios s\u00fabitos e imotivados de depress\u00e3o e raiva, de medo e terror. O in\u00edcio e o t\u00e9rmino destas manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9, via de regra, abrupto e, freq\u00fcentemente, existem outros sinais sugestivos de disritmia concomitantes.<\/p>\n<p>\u00c9 de primordial import\u00e2ncia ao cl\u00ednico ter no\u00e7\u00e3o dessas altera\u00e7\u00f5es sensoperceptivas e emocionais conseq\u00fcentes \u00e0 epilepsia. Estas s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que despertam, na maioria dos psiquiatras, uma grande inclina\u00e7\u00e3o \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de antipsic\u00f3ticos e\/ou antidepressivos mas que, n\u00e3o obstante, respondem muito melhor ao uso de anticonvulsivantes, notadamente a carbamazepina.<\/p>\n<p>Quando estas Crises Parciais s\u00e3o Complexas as altera\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia podem dar-se sob a forma de estreitamento, denominado Estado Crepuscular, freq\u00fcentemente de m\u00e9dia ou longa dura\u00e7\u00e3o. Nestes Estados Crepusculares \u00e9 comum um certo automatismo motor, quase sempre com atitudes sem objetivo pr\u00e1tico e express\u00e3o facial sugestiva de medo ou agressividade. Havendo agressividade extremada durante o Estado Crepuscular, podemos falar em Furor Epil\u00e9ptico, dist\u00farbio respons\u00e1vel por graves danos sociais e familiares. Passado o epis\u00f3dio, normalmente o paciente n\u00e3o guarda uma lembran\u00e7a n\u00edtida do ocorrido.<\/p>\n<p>Psiquiatricamente, entretanto, interessa-nos os indiv\u00edduos n\u00e3o apenas com crises eletrencefalograficamente ou fisiopatologicamente delimitadas mas, sobretudo, os portadores de um conjunto mais abrangente de sinais e sintomas capazes de conferir-lhes uma maneira peculiar de contatar a realidade e de viver. De acordo com este conceito, muitos autores t\u00eam utilizado o termo Personalidade Epil\u00e9ptica (9,10), Epileptiforme ou Epilept\u00f3ide para designar esta constela\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas ps\u00edquicas associadas \u00e0 atividade disr\u00edtmica do Sistema Nervoso Central, notadamente do lobo temporal.<\/p>\n<p>Eneida Matarazzo reconhece altera\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias \u00e1reas do psiquismo como manifesta\u00e7\u00f5es permanentes dos pacientes epil\u00e9pticos. Na esfera do pensamento ela sublinha a prolixidade e viscosidade comentadas acima, na sexualidade ela refere o aumento ou diminui\u00e7\u00e3o da libido, na psicomotricidade observa a hiperatividade infantil e a presen\u00e7a de tiques e, na esfera da voli\u00e7\u00e3o, enfatiza as obsess\u00f5es e compuls\u00f5es. As altera\u00e7\u00f5es da afetividade s\u00e3o descritas por essa autora englobando a irritabilidade, a agressividade, o medo e a depress\u00e3o. Esta \u00faltima com a marcante caracter\u00edstica de apatia depressiva, mais que de tristeza, propriamente dita, e enfatiza tamb\u00e9m o medo patol\u00f3gico, imotivado e com in\u00edcio precoce na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico da epilepsia, do ponto de vista psiqui\u00e1trico, quer seja do Transtornos Explosivo Intermitente, do Transtornos Explosivo da Personalidade, da S\u00edndrome de Descontrole Epis\u00f3dico, de alguns Transtornos Disruptivos da Inf\u00e2ncia, da Epilepsia n\u00e3o Convulsiva, da Epilepsia Parcial com sintomas ps\u00edquicos ou, simplesmente, da Personalidade Epileptiforme, deve repousar em bases eminentemente cl\u00ednicas. Devem ser avaliadas as manifesta\u00e7\u00f5es da conduta, das emo\u00e7\u00f5es, das rea\u00e7\u00f5es, do desenvolvimento psicomotor, bem como as queixas som\u00e1ticas vagot\u00f4nicas, a vida infantil e o relacionamento interpessoal. Enfim, devemos armar um arcabou\u00e7o da personalidade atual e pregressa e da\u00ed, independente dos resultados eletrencefalogr\u00e1ficos, dizer se o paciente tem ou n\u00e3o tra\u00e7os epileptiformes.<\/p>\n<p>Para os profissionais sens\u00edveis ao conceito das altera\u00e7\u00f5es da personalidade de natureza epil\u00e9ptica, \u00e9 muito importante a investiga\u00e7\u00e3o minuciosa sobre algumas caracter\u00edsticas personais. Evidentemente isso contribuir\u00e1, sobremaneira, na melhor resolutividade terap\u00eautica, j\u00e1 que, como dissemos, tais quadros respondem bem \u00e0 carbamazepina.<\/p>\n<p>Deve-se verificar a ocorr\u00eancia de enurese noturna na inf\u00e2ncia at\u00e9 mais de 6 anos, terror noturno mesmo depois de adulto, sono muito agitado com fala noturna e\/ou sonambulismo em qualquer idade, epis\u00f3dios de perda de f\u00f4lego na primeira inf\u00e2ncia, ocorr\u00eancia de convuls\u00f5es febris na inf\u00e2ncia, irritabilidade e agressividade a vida toda, instabilidade do humor do tipo que acorda com o &#8220;p\u00e9 esquerdo&#8221;, cefal\u00e9ias freq\u00fcentes, incluindo o tipo enxaqueca, epis\u00f3dios de vista escura e tontura postural, dist\u00farbios da aten\u00e7\u00e3o na inf\u00e2ncia, viscosidade, tend\u00eancias depressivas do tipo ap\u00e1tico. Trata-se de uma verdadeira constela\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os que, no m\u00ednimo, oferecer\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o \u00e0 mais para hip\u00f3tese diagn\u00f3stica.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem recomende, tamb\u00e9m, para a possibilidade desse tipo de personalidade epileptiforme, observa\u00e7\u00f5es sobre a predomin\u00e2ncia do Sistema Nervoso Parassimp\u00e1tico, tais como, bradicardia, hipotens\u00e3o arterial, tend\u00eancia \u00e0 gastrites e \u00falceras digestivas, alergia e asma br\u00f4nquica. Para a psiquiatria, a convuls\u00e3o generalizada \u00e9 apenas mais um sintoma epil\u00e9ptico, podendo ou n\u00e3o estar presente e o eletroencefalograma, nesses casos, s\u00f3 ter\u00e1 valor se positivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: NIPN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A abordagem da epilepsia tem sido muito diferente entre as duas disciplinas m\u00e9dicas que se ocupam do problema: a neurologia e a psiquiatria. 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