{"id":1674,"date":"2022-09-10T20:37:05","date_gmt":"2022-09-10T20:37:05","guid":{"rendered":"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/?p=1674"},"modified":"2023-02-24T15:25:51","modified_gmt":"2023-02-24T15:25:51","slug":"autismo-e-comum-em-diversas-outras-sindromes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/universoautista.com.br\/portal7\/autismo-e-comum-em-diversas-outras-sindromes\/","title":{"rendered":"Autismo \u00e9 comum em diversas outras s\u00edndromes"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/programa-educativo-e1441928173452.jpg\"><img  title=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1675\" src=\"http:\/\/universoautista.com.br\/oficial\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/programa-educativo-300x225.jpg\"  alt=\"programa-educativo-300x225 Autismo \u00e9 comum em diversas outras s\u00edndromes\"  width=\"300\" height=\"225\"><\/a>indiv\u00edduos dentro do espectro autista t\u00eam dificuldade com a linguagem falada e a intera\u00e7\u00e3o social, e apresentam movimentos repetitivos ou estereotipados \u2013 sintomas que aparecem cedo na inf\u00e2ncia. O autismo \u00e9 considerado por muitos cientistas um defeito na comunica\u00e7\u00e3o entre as c\u00e9lulas nervosas \u2013 essa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecida como sinapse.<\/p>\n<p>Indiv\u00edduos dentro do espectro autista t\u00eam dificuldade com a linguagem falada e a intera\u00e7\u00e3o social, e apresentam movimentos repetitivos ou estereotipados \u2013 sintomas que aparecem cedo na inf\u00e2ncia. O autismo \u00e9 considerado por muitos cientistas um defeito na comunica\u00e7\u00e3o entre as c\u00e9lulas nervosas \u2013 essa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecida como sinapse. Defeitos nas sinapses costumam levar a conex\u00f5es nervosas erradas, contribuindo para o comportamento autista. A experi\u00eancia sugere que indiv\u00edduos autistas devam entrar em terapias o quanto antes, durante a \u201cjanela cr\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o\u201d do c\u00e9rebro, para que os circuitos nervosos tenham mais chances de se reestabelecerem de forma correta antes desse per\u00edodo acabar. Infelizmente, isso n\u00e3o \u00e9 regra e, mesmo assim, alguns indiv\u00edduos n\u00e3o apresentam a trajet\u00f3ria cl\u00ednica desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sinapses s\u00e3o estruturas altamente complexas, resultantes da intera\u00e7\u00e3o de diversas prote\u00ednas e \u00e1cidos nucleicos, gerados a partir da atividade de algumas centenas de genes ativados nos neur\u00f4nios. Infelizmente, o autismo cl\u00e1ssico n\u00e3o parece ser resultado de um ou dois genes defectivos, o que favoreceria encontrar formas qu\u00edmicas de interven\u00e7\u00e3o. Na verdade, estudos gen\u00e9ticos recentes t\u00eam confirmado que seriam algumas dezenas de genes \u2013 centenas, em alguns pacientes \u2013 que n\u00e3o estariam funcionando normalmente. Essa complexidade gen\u00e9tica \u00e9 um grande obst\u00e1culo na busca de tratamentos. E como se n\u00e3o bastasse, o autismo \u00e9 comum em diversas outras s\u00edndromes gen\u00e9ticas, complicando ainda mais seu estudo. Por exemplo, 25% dos pacientes com a s\u00edndrome do X-fr\u00e1gil s\u00e3o autistas e quase 100% dos pacientes com a s\u00edndrome de Rett apresentam n\u00edveis variados de autismo.<\/p>\n<p>A ideia de que as conex\u00f5es nervosas estabelecidas depois da \u201cjanela de forma\u00e7\u00e3o\u201d do c\u00e9rebro, per\u00edodo que reestrutura as sinapses durante o desenvolvimento do sistema nervoso, sejam permanentes \u00e9 um dos dogmas mais antigos da neuroci\u00eancia. Muitos acreditam que esse tipo de forma\u00e7\u00e3o cerebral seja permanente, imut\u00e1vel. No entanto, experimentos recentes t\u00eam desafiado esse conceito, mostrando que as sinapses e conex\u00f5es nervosas s\u00e3o mais male\u00e1veis do que se imaginava antes, podendo acomodar certa flexibilidade em circuitos importantes para o c\u00e9rebro mesmo depois dessa janela. Pretendo aqui revisitar alguns desses dados, tanto em modelos animais quanto em humanos.<\/p>\n<p>Talvez o primeiro ind\u00edcio de que circuitos defeituosos sejam revers\u00edveis tenham vindo dos estudos em modelos animais para a s\u00edndrome de Rett. Essa forma sindr\u00f4mica de autismo tem uma causa gen\u00e9tica bem definida, muta\u00e7\u00f5es no gene chamado MeCP2. Esse gene tem a capacidade de se associar \u00e0 fita de DNA e regular a atividade de outros genes. N\u00e3o \u00e9 por acaso que muta\u00e7\u00f5es no MeCP2 n\u00e3o se restringem \u00e0 s\u00edndrome de Rett, mas foram encontradas em indiv\u00edduos com autismo cl\u00e1ssico, esquizofrenia e outros tipos de doen\u00e7as mentais. O gene \u00e9 considerado por muitos cientistas a \u201cpedra de Roseta\u201d que permitiria a leitura do c\u00e9rebro, pois funciona como um regulador de outros genes. Decifrar os mecanismos pelos quais o MeCP2 controla o desenvolvimento do c\u00e9rebro \u00e9 uma \u00e1rea extremamente din\u00e2mica atualmente.<\/p>\n<p>Em 2007, o grupo escoc\u00eas do pesquisador Adrian Bird gerou um camundongo transg\u00eanico em que podia controlar a atividade do MeCP2 por meio de um interruptor ativado por uma dose transiente de horm\u00f4nio. No nascimento, o grupo manteve o gene desligado e o animal adulto apresentava uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas comportamentais semelhantes aos pacientes com s\u00edndrome de Rett e autismo. Ativando o MePC2 antes do t\u00e9rmino da tal janela cr\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro, o animal conseguia se recuperar dos sintomas. A surpresa veio quando os pesquisadores decidiram ativar o MeCP2 em animais adultos. Esperava-se que os circuitos neuronais n\u00e3o pudessem ser refeitos, mas o resultado surpreendeu. Os animais eliminaram a maioria dos sintomas e se comportaram de forma semelhante a animais que nunca tiveram o gene desligado. A an\u00e1lise dos neur\u00f4nios mostrou que eles recuperaram a capacidade funcional.<\/p>\n<p>Outro gene, Nlgn3, comumente alterado em alguns indiv\u00edduos autistas, ativa uma das prote\u00ednas que participam da estrutura f\u00edsica da sinapse. Utilizando-se de um mecanismo semelhante ao do MeCP2, o grupo do cientista St\u00e9phane Baudouin su\u00ed\u00e7o criou um camundongo geneticamente alterado com um interruptor no gene Nlgn3. Ao desligar o interruptor, o Nlgn3 n\u00e3o funcionava corretamente, simulando o que acontece em alguns indiv\u00edduos autistas. Animais com o Nlgn3 desligado apresentam conex\u00f5es nervosas alteradas e comportamentos alterados. Da mesma forma que aconteceu com o MeCP2, ao ativar o Nlgn3 em animais adultos, esses tamb\u00e9m foram capazes de se recuperar e comportar como animais normais.<\/p>\n<p>Os experimentos em animais sugerem que existe flexibilidade para a reestrutura\u00e7\u00e3o de circuitos altamente complexos no c\u00e9rebro, mesmo ap\u00f3s o per\u00edodo critico do desenvolvimento. Obviamente, os experimentos em animais n\u00e3o podem ser reproduzidos em humanos por uma quest\u00e3o \u00e9tica. A duvida de que isso seria poss\u00edvel em humanos vinha do fato que nosso c\u00e9rebro \u00e9 muito mais complexo do que o de roedores. No entanto, hoje em dia j\u00e1 existem tecnologias que permitam a reprograma\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas som\u00e1ticas de um humano adulto a um est\u00e1gio de c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias e, a partir da\u00ed, a convers\u00e3o em neur\u00f4nios funcionais. Apesar das limita\u00e7\u00f5es da t\u00e9cnica \u2013 os estudos s\u00e3o feitos em laborat\u00f3rios, n\u00e3o no c\u00e9rebro das pessoas \u2013, nosso grupo da Universidade da Calif\u00f3rnia, em San Diego, nos EUA, conseguiu corroborar os dados de camundongos, mostrando que neur\u00f4nios humanos tamb\u00e9m s\u00e3o capazes de reestabelecer circuitos defectivos, uma vez formados. Melhor ainda, isso foi demonstrado de forma gen\u00e9tica e com o uso de drogas experimentais. O trabalho foi validado de forma independente por diversos outros grupos mundo afora e abriu perspectivas para novos ensaios cl\u00ednicos, atualmente em andamento.<\/p>\n<p>Recentemente, o grupo liderado por Joe Gleeson, meu colega na Universidade da Calif\u00f3rnia, mapeou altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas relacionadas com uma forma de autismo familiar que segrega junto com retardo mental e epilepsia ocasionados por casamentos consangu\u00edneos. As muta\u00e7\u00f5es afetam o gene BCKDK, respons\u00e1vel pelo metabolismo de certos amino\u00e1cidos, gerando defici\u00eancia desses nutrientes no c\u00e9rebro. Camundongos gerados sem o gene BCKDK tamb\u00e9m apresentaram comportamentos alterados. Incrivelmente, a simples administra\u00e7\u00e3o de dieta suplementar com amino\u00e1cidos foi capaz de reverter os sintomas nos animais, sugerindo que essa forma de autismo possa ser revertida facilmente. Os pacientes est\u00e3o sendo atualmente submetidos a dietas enriquecidas para amino\u00e1cidos e os resultados dever\u00e3o aparecer em breve.<\/p>\n<p>Essas observa\u00e7\u00f5es trazem esperan\u00e7as n\u00e3o s\u00f3 para crian\u00e7as, mas tamb\u00e9m indiv\u00edduos adultos com autismo e possivelmente outras doen\u00e7as do desenvolvimento<\/p>\n<p>por Alysson Muotri<br \/>\nFonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>indiv\u00edduos dentro do espectro autista t\u00eam dificuldade com a linguagem falada e a intera\u00e7\u00e3o social, e apresentam movimentos repetitivos ou estereotipados \u2013 sintomas que aparecem cedo na inf\u00e2ncia. O autismo \u00e9 considerado por muitos cientistas um defeito na comunica\u00e7\u00e3o entre as c\u00e9lulas nervosas \u2013 essa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecida como sinapse. 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